A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) divulgou, nesta sexta-feira, 14 de agosto, sua nova política de elegibilidade para atletas da categoria feminina. A medida segue os regulamentos adotados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB), limitando a participação exclusivamente a “atletas do sexo biológico feminino” e exigindo testagem e triagem do gene SRY. As regras entram em vigor a partir desta temporada.
Em comunicado, o presidente da CBV, Radamés Lattari, justificou a decisão: “Com a mudança dos parâmetros internacionais e da responsabilidade institucional, a CBV buscou manter o alinhamento entre as regras que regem as competições nacionais com as hoje vigentes para as competições internacionais. A decisão da CBV se adequa ao COI e deixa nossos campeonatos equiparados com as competições internacionais.” O médico João Olyntho, presidente do Conselho de Saúde do Voleibol, também comentou a exigência do exame: “A CBV se alinhou aos posicionamentos do COI e da FIVB quanto à necessidade de as jogadoras realizarem o processo de triagem do gene SRY para a elegibilidade da categoria feminina. A coleta de material é feita de forma pouco intrusiva e altamente precisa.”
O teste do gene SRY (Sex-determining Region Y) é um exame genético que identifica a presença do cromossomo Y e atua como marcador do sexo biológico masculino, com coleta feita via saliva e sem validade definida para os resultados. O tema gera debate no esporte mundial em torno da justiça competitiva, da inclusão e dos limites biológicos do sexo. Especialistas criticam o uso do teste como métrica absoluta, argumentando que o sexo biológico e a resposta hormonal são complexos e não se resumem à presença de um único gene. A política divulgada pela CBV prevê exames complementares e exceções em casos de resultados positivos.
Na prática, a medida pode excluir das competições organizadas pela CBV, como a Superliga Feminina em todas as divisões, a Copa Brasil e a Supercopa do Brasil, atletas que passaram por transição de gênero. A mudança também representa uma guinada em relação à trajetória da própria entidade: em 2017, a CBV foi pioneira ao editar regulamentação sobre elegibilidade de atletas transgêneros, liberando a inscrição e a estreia oficial de Tifanny Abreu pelo Bauru. Mais recentemente, a confederação chegou a acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir a participação de Tifanny na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino em Londrina (PR), após a Câmara Municipal aprovar requerimento para impedir a atleta de jogar, com base em legislação local que proíbe atletas cujo gênero divirja do sexo biológico.
Tifanny Abreu pode ser a atleta mais afetada pelas novas regras. Ela fez história no esporte ao se tornar a primeira mulher trans a vencer a Superliga Feminina de Vôlei e a Copa Brasil, pelo Osasco, além de se consolidar entre as maiores pontuadoras e protagonistas de torneios nacionais.
Em nota, o Osasco São Cristóvão Saúde afirmou ter sido surpreendido com a nova política, elaborada sem participação ou opinião prévia do clube. Confira a nota na íntegra: “O Osasco São Cristóvão Saúde informa que foi surpreendido hoje com a informação da nova Política de Elegibilidade para a Categoria Feminina, publicada nesta sexta-feira (14), pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). Tal política foi elaborada sem qualquer participação ou opinião prévia do clube. A decisão impacta diretamente a atleta Tifanny Abreu, que veste a camisa do clube desde 2021 e construiu uma trajetória marcante dentro e fora de quadra. Diante disso, o clube, junto com seu departamento jurídico, está avaliando a normativa publicada para definição dos próximos passos. O clube reafirma seu integral apoio a Tifanny neste momento e reforça seu compromisso permanente com o respeito e a valorização de todas as pessoas que fazem parte da sua história.”
A reportagem do JSTV Sports entrou em contato com as assessorias do Osasco e de Tifanny Abreu em busca de posicionamento sobre o assunto. A matéria será atualizada assim que houver retorno.
